Cinzas do carnaval
Vladimir Carvalho
Cineasta
Sem nenhuma convicção, mas movidos por certa curiosidade talvez malsã, fomos, meses atrás, atendendo a convite do secretário de Cultura, Silvestre Gorgulho, ao encontro dos carnavalescos da Beija-Flor que se reuniriam com a prata da casa, no Açougue Cultural T-Bone, de Luiz Amorim. Já era fato consumado que o GDF patrocinaria o desfile da escola carioca com o tema dos 50 anos de aniversário de Brasília, e o nosso papel, segundo os termos da convocação, era oferecermos subsídios com ideias e sugestões que, incorporadas ao projeto ou contribuindo para o libreto, emprestassem o máximo de autenticidade e brilho ao espetáculo na Sapucaí.
Rolava certo desconforto entre nossas hostes brasilienses porque, como é notório, o governo local — leia-se o hoje apeado José Roberto Arruda — sempre se manteve, desde o início de sua gestão, olimpicamente indiferente às manifestações culturais da cidade, em qualquer de seus segmentos, negando-lhes, impassível, os recursos a que legitimamente faziam jus. Mas, nem por isso, deixamos de nos congraçarmos com os de fora, sobretudo tocados pelo entusiasmo do nosso irrequieto poeta e compositor Luis Turiba, de Moacir Oliveira, da Unidos do Cruzeiro, do anfitrião Luiz Amorim e, naturalmente, pela lábia e saltitante fervor do secretário Gorgulho.
Discrepâncias à parte, colaboramos nas honras da casa em volta dos tira-gostos do T-Bone. Descrente, mas respeitoso, entreguei a Alexandre Louzada, líder dos visitantes, um exemplar do livro Conterrâneos velhos de guerra, com o roteiro completo do filme que realizei sobre Brasília e que é, na minha óptica, razoável súmula da história da cidade, desde a construção até pelo menos os anos de l990 do século que passou. Porém, a impressão que me ficou do encontro foi pífia: superficialidade e pouco caso da parte dos sapientes “pesquisadores” em fraquíssima interação conosco, como se aquilo fosse o cumprimento de uma formalidade, pois já tinham tudo adredemente resolvido na cabeça. Voltamos nós, então, às nossas lides e peregrinações pelos corredores da Secretaria de Cultura em busca dos meios para consecução de nossos projetos nada carnavalescos e que até o momento tardam nas burocráticas gavetas.
No meio do caminho, entretanto, havia uma pedra, a pedra do escândalo, o atropelo do panetone da corrupção que nos assolou todos esses meses até se transformar no agora fora, Arruda. Em plena crise, inúmeros recados de Turiba e, finalmente, o convite de Moacir Oliveira, que só me alcançou horas antes de uma inadiável viagem de trabalho, o que me deixou fora. Era para irmos ao Rio de Janeiro atendendo ao chamado da Beija- Flor, que, agora, pedia socorro sem saber o que fazer diante do cambalacho que poderia botar gosto particularmente ruim no seu carnaval.
Não fui, mas, no avião para Salvador, não conseguia parar de cogitar no que diria ao povo da Beija-Flor se tivesse ido a esse novo encontro. E tudo jorrou cristalino como água da fonte na tela do pensamento. Ingênuo e pretensioso, eu teria proposto: “Vocês querem entrar para a história do carnaval e serem para sempre lembrados? Pois devolvam o dinheiro comprometedor do Arruda. Limpem a barra e convoquem os carnavalescos de Brasília para um fraternal e providencial mutirão. Eu tenho tudo pronto num libreto improvisado em cima da perna.
Abrimos na avenida com um imenso telão com o genial filme de Durval Barbosa como leitmotiv e dali puxaríamos a profusa cornucópia da Caixa de Pandora: um gigantesco panetone de dentro do qual pulavam coreograficamente ratos de todos os naipes e de colarinho branco; uma cueca monumental estendida de canto a canto da passarela de onde transborda uma cascata de notas de R$ 100 que vão ficando pelo chão como folhas, ao longo do desfile.
Meias na mesma escala, em varais, infladas de dinheiro; a famigerada bolsa de dona Eurides Brito inspirando um dos carros alegóricos com um boneco da própria na plataforma de destaque; uma comissão de frente em clave grotesca, constituída de bonecos enormes a exemplo do carnaval de Olinda, simulando Arruda e seus comparsas, a camarilha distrital, o burlesco secretariado, em smokings listrados como roupa de preso. O samba-enredo deve misturar o estilo escrachado do Pacotão com as bossas dos bambas da própria Beija-Flor. Enfim, uma ópera bufa magistral feita de reciclados, lembrando os bons tempos de Joãosinho Trinta no Sambódromo. Preveem-se aplausos exaustivos, ovação. Sucesso absoluto junto à massa.
No outro dia, já de volta a Brasília e ainda excitado com o “meu” desfile, telefonei para Gougon, que também fora convidado ao Rio, mas declinara do convite e contei tudo sobre minha ideia. Hiperativo, ele vibrou e passou rápido a tomar providências, comunicando-se inclusive com um vereador carioca, seu amigo, com grande penetração no populacho das escolas de samba. A resposta da consulta não se fez esperar e foi como uma ducha de água gelada. Falou e disse a voz da experiência: “Não se metam. Vocês estão loucos e não sabem da missa um terço. Esse pessoal é 10 vezes mais esperto do que o Arruda; tirem o cavalo da chuva. Caiam fora enquanto é tempo!”
Na madrugada do dia 15 de fevereiro, assistindo ao desfile da célebre escola, entendi finalmente toda a extensão de minha utopia babaca viajando no reino da maionese. Tive vários sobressaltos diante do luxo asiático e da extravagante fantasia, e o que vi, ao fim e ao cabo, foi insípida e monótona repetição dos chavões do hoje decadente carnaval instituído. Impossível identificar qualquer sombra de nossa Brasília naquela desenfreada estereotipia, onde mais uma vez comparece o velho clichê do Egito e suas múmias douradas, numa fuga autista de nosso presente tão sugestivo de sátira, humor e transgresssão, matéria-prima de um carnaval que se preza.
Ali, onde esperávamos a história de Brasília e seus protagonistas (e são 54 anos desde a construção), o que vimos foi o engodo. Em que bramas, em que brumas esconderam JK, Oscar Niemeyer, Lucio Costa e Bernardo Sayão? Em seus lugares assomam requintadas contrafações de Nefertite e Akneton. Qualquer Nabucodonosor serviria contanto que se fizesse jus ao desperdício dos recursos do contribuinte brasiliense. Até mesmo um simpático calango do cerrado conspurcava o lugar que legitimamente cabia ao nosso Dragão das Diretas-já, que marcou época em nossa memória coletiva. Sem falar num inusitado Anhanguera e um séquito de índios de isopor que soam tremendamente falsos e fora do lugar.
A um limbo inexplicável foram condenados os nossos artistas luminares, póstumos uns, outros em franca atividade! Por onde ficaram Athos Bulcão, Cláudio Santoro, Darcy Ribeiro, Rubem Valentim, Renato Russo, Cassia Eller, Hamilton de Holanda, o Clube do Choro, o Cabeças, o rock; e o Boi do Teodoro? Prefiro mil vezes o carnaval subdesenvolvido, mas alegre, irreverente, livre e, sobretudo, legítimo do Pacotão.
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